1
00:00:01,080 --> 00:00:06,160
Camilo pessanha clepsidra, 
edição imprensa nacional, 2014. 

2
00:00:08,320 --> 00:00:18,840
Inscrição eu vi a luz em um país
perdido, a minha alma é lenha e 

3
00:00:18,840 --> 00:00:25,160
da inerme Ah, quem pudesse 
deslizar sem ruído no chão, 

4
00:00:25,160 --> 00:00:27,200
sumir se. 
Como faz um verme. 

5
00:00:31,520 --> 00:00:40,920
Sonetos, tatuagens complicadas 
do meu peito, troféus, emblemas,

6
00:00:40,920 --> 00:00:45,400
2 leões alados, tais entre 
corações ingrinaldados, um 

7
00:00:45,400 --> 00:00:50,760
enorme soberbo, amor perfeito e 
o meu brasão tem de ouro num 

8
00:00:50,760 --> 00:00:55,640
quartel vermelho um lixo, tem no
outro uma donzela em campo, azul

9
00:00:55,760 --> 00:00:58,960
de prata, o corpo. 
Aquela que é no meu braço, como 

10
00:00:58,960 --> 00:01:05,280
aqui, um bruquel timbre 
rompante, a megalomania divisa, 

11
00:01:05,680 --> 00:01:10,000
um AI que insiste noite e dia, 
lembrando ruínas, sepulturas 

12
00:01:10,000 --> 00:01:14,600
rasas entre castelos, cerpes, 
batalhantes e águias de negro, 

13
00:01:14,760 --> 00:01:17,280
desfralando as asas que a realça
de ouro. 

14
00:01:17,280 --> 00:01:27,720
Um colar de bezandes está tua. 
Cansei me de tentar o teu 

15
00:01:27,720 --> 00:01:32,280
segredo no teu olhar sem cor 
frio escalpelo o meu olhar 

16
00:01:32,280 --> 00:01:36,800
quebrei a debatê lo como o onda 
na crista de um Rochedo segredo 

17
00:01:36,800 --> 00:01:42,160
dessa alma e meu degredo e minha
obsessão para bebê lo fui o teu 

18
00:01:42,160 --> 00:01:47,400
lábio oscular num pesadelo por 
noites de pavor cheio de medo e 

19
00:01:47,400 --> 00:01:52,680
o meu ósculo ardente alucinado 
esfriou sobre o mármore correto 

20
00:01:52,680 --> 00:01:59,480
desse entreaberto lábio gelado. 
Desse lábio de mármore discreto,

21
00:01:59,840 --> 00:02:05,880
severo como um túmulo fechado, 
sereno como um pélogo quieto, 

22
00:02:10,520 --> 00:02:16,040
fonógrafo, vai declamando um 
cómico defunto. 

23
00:02:16,600 --> 00:02:20,840
Uma plateia ri perdidamente do 
bom jarreta e há um odor no 

24
00:02:20,840 --> 00:02:25,520
ambiente, a cripta e a pó do 
anacrónico assunto. 

25
00:02:26,240 --> 00:02:32,040
Muda o registo, eis uma 
barcarola, lírios, lírios, águas

26
00:02:32,040 --> 00:02:37,720
do Rio, a Lua ante o seu corpo, 
o sonho meu flutua sobre um Paul

27
00:02:38,000 --> 00:02:43,600
estática corola muda outra vez, 
gorjei os estribilhos de um 

28
00:02:43,600 --> 00:02:47,600
clarinho de oiro, o cheiro de 
junquilhos, vívido e agro 

29
00:02:47,600 --> 00:02:54,600
tocando Alvorada cessou e 
amorosa. 

30
00:02:55,120 --> 00:02:59,360
A alma das cornetas quebrou se 
agora a orvalhada e voada 

31
00:03:01,520 --> 00:03:14,080
primavera manhã que flúvio de 
Violetas desce, se em folha dos 

32
00:03:14,080 --> 00:03:18,400
tenros a Colina, em glaucos 
frouxo, os tons adormecidos 

33
00:03:18,400 --> 00:03:22,000
queçaram frescos, meus olhos 
ardidos nos quais a chama do 

34
00:03:22,000 --> 00:03:25,760
furor de Colina. 
Ó, vem de branco do imo da 

35
00:03:25,760 --> 00:03:32,040
folhagem os ramos leve a tua mão
à parte, ó vem meus olhos querem

36
00:03:32,040 --> 00:03:37,960
desposar te refletir te virgem. 
A Serena imagem de Silva, doida,

37
00:03:37,960 --> 00:03:42,880
mas de esquiva com delicada 
teós, colou num dedo com aljofa 

38
00:03:42,880 --> 00:03:51,560
cor de rosa, viva ligeira, saia 
doce, brisa impélia ovem de 

39
00:03:51,560 --> 00:03:56,440
branco. 
Do imo do Arvoredo, alma de 

40
00:03:56,440 --> 00:04:10,360
silvo, carne de camélia esvelta 
surge, vem das águas nua, 

41
00:04:11,120 --> 00:04:15,880
timonando uma concha ao 
vinitante os rins flexíveis e o 

42
00:04:15,880 --> 00:04:21,600
seio fermente, morre me a boca 
por beijar a tua sem vil pudor. 

43
00:04:22,720 --> 00:04:27,200
Do que há que ter vergonha? 
Eis me Formoso, moço e casto 

44
00:04:27,280 --> 00:04:31,000
forte, tão branco o peito para 
os pôr à morte. 

45
00:04:31,320 --> 00:04:33,520
Mas que hora em fama não se 
tente. 

46
00:04:33,520 --> 00:04:37,920
Ponha a hidratorpe que a 
estrangulo esmago de encontro à 

47
00:04:37,920 --> 00:04:41,880
aos onde a cabeça teado com os 
cabelos escolando água, ir 

48
00:04:41,920 --> 00:04:46,240
inclinar, se desmaiar de amor 
sob o fervor da minha virgindade

49
00:04:46,480 --> 00:04:48,720
e o meu pulso de jovem 
Gladiador. 

50
00:04:53,200 --> 00:04:58,760
Depois da luta e depois da 
Conquista, fiquei só fora. 

51
00:04:58,760 --> 00:05:02,240
Um ato antipático. 
Deserta a ilha e no lençol 

52
00:05:02,240 --> 00:05:07,400
aquático tudo verde, verde a 
perder de vista. 

53
00:05:08,800 --> 00:05:11,840
Porque os fostes minhas 
Caravelas carregadas de todo o 

54
00:05:11,840 --> 00:05:15,240
meu Tesouro. 
Longas teias de luar, de lhama 

55
00:05:15,240 --> 00:05:18,320
de oiro, legendas a diamantes 
das estrelas. 

56
00:05:18,640 --> 00:05:22,680
Quem vos desfez formas 
inconsistentes, porque cujo amor

57
00:05:22,680 --> 00:05:28,800
escala é a muralha leão armado 
uma espada nos dentes, felizes 

58
00:05:28,800 --> 00:05:33,240
vós ou mortos da Batalha, 
sonhais de costas nos olhos 

59
00:05:33,240 --> 00:05:43,320
abertos, refletindo as estrelas 
boquiabertos quem poluiu, quem 

60
00:05:43,320 --> 00:05:46,240
rasgou os meus Lençóis de 
linguon esperei morrer. 

61
00:05:46,920 --> 00:05:51,680
Meu estão castos Lençóis do meu 
Jardim, exigo os altos girassóis

62
00:05:51,680 --> 00:05:55,120
quem foi que os arrancou e 
lançou no caminho quem quebrou 

63
00:05:55,120 --> 00:05:59,960
que for o cruel e semiesco a 
mesa de um cear tábua tosca de 

64
00:05:59,960 --> 00:06:04,080
Pinho e me espalhou a lenha e me
tornou o vinho da minha vinha o 

65
00:06:04,080 --> 00:06:11,720
vinho assimilado e fresco. 
A minha pobre mãe não te olhas 

66
00:06:11,720 --> 00:06:15,640
mais da cova. 
Olha a noite, olha o vento. 

67
00:06:16,120 --> 00:06:20,960
Em ruína, a Casa Nova dos meus 
ossos, o lume a extinguir, se 

68
00:06:20,960 --> 00:06:25,400
breve não venhas mais ao lar, 
não vagabundes mais alma da 

69
00:06:25,400 --> 00:06:31,520
minha mãe, não Andes mais à neve
de noite a mendiar às portas dos

70
00:06:31,520 --> 00:06:44,040
casais Oh, meu coração torna 
para trás de onde vais a correr,

71
00:06:44,040 --> 00:06:48,000
desatinado. 
Meus olhos incendidos que o 

72
00:06:48,000 --> 00:06:54,240
pecado queimou voltai horas de 
paz verbam da neve os ombros dos

73
00:06:54,240 --> 00:07:00,480
caminhos, a cinza arrefeceu o 
sobre o Brasil noites da Serra, 

74
00:07:02,000 --> 00:07:07,800
o casebre transido cismei meus 
olhos como 2 velhinhos extintas,

75
00:07:07,800 --> 00:07:13,000
primaveras e vulcaias já vai 
florir o pomar das macieiras. 

76
00:07:13,600 --> 00:07:19,360
Temos de enfeitar os chapéus de 
maias sosseguei esfriai olhos 

77
00:07:19,360 --> 00:07:24,840
febris, íamos de ir cantar nas 
radeiras ladainhas doces vossos 

78
00:07:24,840 --> 00:07:32,640
senis floriram por engano as 
rosas bravas. 

79
00:07:34,000 --> 00:07:38,200
No inverno veio o vento de 
esfolá las em que cismas, meu 

80
00:07:38,200 --> 00:07:41,880
bem, porque me calas, as vozes 
com que há pouco me enganavas. 

81
00:07:43,280 --> 00:07:48,560
Castelos doidos, tão cedo 
queístes onde vamos alheio o 

82
00:07:48,560 --> 00:07:52,760
pensamento de mãos dadas teus 
olhos, que um momento 

83
00:07:52,760 --> 00:07:58,720
prescrutaram nos meus como vão 
tristes, e sobre nós caem, 

84
00:07:58,720 --> 00:08:07,560
nupcial a neve surda em triunfo,
pétalas de leve juntando o chão 

85
00:08:07,560 --> 00:08:11,400
na acrópole de gelos em redor do
teu vulto é como um véu. 

86
00:08:12,760 --> 00:08:19,680
Ganha se esparse quanto a flor 
do céu, sobre nós 2, sobre os 

87
00:08:19,680 --> 00:08:27,720
nossos cabelos, e eis quanto o 
resta do idílio acabado 

88
00:08:28,680 --> 00:08:33,000
primavera que durou um momento 
como vão longe as manhãs do 

89
00:08:33,000 --> 00:08:39,679
convento do alegre conventinho 
abandonado, tudo acabou anémonas

90
00:08:39,720 --> 00:08:45,600
hidrângias cilindros. 
Flores estão nossas amigas no 

91
00:08:45,600 --> 00:08:50,640
claustro, agora viçam as urtigas
arrojam se cobras pelas velhas 

92
00:08:50,640 --> 00:08:55,280
lajias sobre a inscrição do teu 
nome de lido, que os meus olhos 

93
00:08:55,280 --> 00:09:00,480
mal podem soletrar cansados, e o
aroma fenecido que se ebola do 

94
00:09:00,480 --> 00:09:07,080
teu nome vulgar enobreceu 
aquietação do ouvido bondos 

95
00:09:08,680 --> 00:09:19,240
ingénua inscrição tumular. 
Singra o navio sob a Água Clara 

96
00:09:19,240 --> 00:09:24,360
vê se o fundo do mar de Areia 
fina impecável figura peregrina,

97
00:09:24,600 --> 00:09:29,000
a distância sem fim que nos 
separa seixinhos da mais alva 

98
00:09:29,000 --> 00:09:32,000
porcelana conchinhas até no 
momento cor de rosa. 

99
00:09:32,000 --> 00:09:36,600
Na fria transparência luminosa, 
repousam fundos sob a água plana

100
00:09:37,680 --> 00:09:42,800
e a vista sonda reconstrui, 
compara. 

101
00:09:43,800 --> 00:09:49,160
Tantos naufrágios perdições 
destroços ou fugio da visão 

102
00:09:50,080 --> 00:09:55,520
lindamentira rosa e as unhinhas 
que a maré partira, dentinhos 

103
00:09:55,520 --> 00:10:00,720
que o vai e vem desengastara, 
Conchas, Pedrinhas, pedacinhos 

104
00:10:00,720 --> 00:10:07,080
de ossos. 
Foi um dia de e noutras agonias 

105
00:10:08,160 --> 00:10:14,240
dia de sol, inundado de sol. 
Fogiam nuas as espadas frias. 

106
00:10:14,240 --> 00:10:18,800
Dia de sol, inundado de sol, foi
um dia de falsas alegrias, dália

107
00:10:18,800 --> 00:10:23,840
a esfolhar se o seu molde, 
sorriso, voltavam os ranchos das

108
00:10:23,840 --> 00:10:26,360
romarias. 
Dália a esfolhar, se o seu 

109
00:10:26,360 --> 00:10:30,640
molde, sorriso, dia impressível 
mais que os outros dias, tão 

110
00:10:30,640 --> 00:10:37,040
lúcido, pálido, tão lúcido, 
difuso de teoramas de teorias, o

111
00:10:37,040 --> 00:10:40,320
dia fútil mais que os outros 
dias minuete de discretas 

112
00:10:40,320 --> 00:10:45,240
ironias, tão lúcido. 
Tão pálido, tão lúcido. 

113
00:10:50,040 --> 00:10:53,240
Passou o outono já já está no 
frio. 

114
00:10:54,320 --> 00:10:59,080
O outono do seu riso magoado, 
auge do inverno oblíquo o Sol 

115
00:10:59,160 --> 00:11:02,080
gelado, o Sol e as águas 
límpidas do Rio. 

116
00:11:02,720 --> 00:11:06,960
Águas claras do Rio, águas do 
Rio fugindo sob o meu olhar 

117
00:11:06,960 --> 00:11:09,200
cansado, para onde não levais 
meu vão. 

118
00:11:09,200 --> 00:11:12,200
Cuidado. 
Aonde vais o meu coração vazio? 

119
00:11:13,400 --> 00:11:19,280
Fiquei cabelos dela flutuando e 
debaixo das águas fugirias os 

120
00:11:19,280 --> 00:11:24,560
seus olhos abertos e cismando 
onde idos a correr melancolias e

121
00:11:24,560 --> 00:11:32,960
refratadas longamente ondeando 
as suas mãos translúcidas e 

122
00:11:32,960 --> 00:11:40,720
frias quando voltei. 
Encontrei os meus passos ainda 

123
00:11:40,720 --> 00:11:46,080
frescos sobre o húmido da Areia,
a fugitiva hora rivoqueia tão 

124
00:11:46,080 --> 00:11:51,560
rediviva nos meus olhos baços 
olhos turvos de lágrimas 

125
00:11:51,560 --> 00:11:57,240
contidas mesquinhos passos 
porque doidejastes assim 

126
00:11:57,240 --> 00:12:00,400
transviados e depois tornastes 
ao ponto das primeiras 

127
00:12:00,400 --> 00:12:05,440
despedidas, onde fostes sem tino
ao vento, vário em redor como as

128
00:12:05,440 --> 00:12:08,920
aves num aviário, até que a Zita
fofa lhes faleça. 

129
00:12:10,800 --> 00:12:16,720
Toda essa extensa pista para 
quê, se há de vir a pagar vos a 

130
00:12:16,720 --> 00:12:25,000
maré, com as do novo arrasto, 
que começa imagens que passais 

131
00:12:25,000 --> 00:12:28,520
pela retina dos meus olhos, 
porque não vos fixais, que 

132
00:12:28,520 --> 00:12:31,680
passais como a água Cristalina 
por uma fonte para nunca mais, 

133
00:12:32,440 --> 00:12:35,840
ou para o Lago escuro, onde 
termina vosso curso, silente de 

134
00:12:35,840 --> 00:12:38,520
juncais, e o vago medo 
angustioso domina. 

135
00:12:39,400 --> 00:12:43,800
Porque guitos sem mim, não me 
levais sem voz. 

136
00:12:43,800 --> 00:12:48,040
O que são os meus olhos abertos,
o espelho inútil meus olhos 

137
00:12:48,040 --> 00:12:53,560
pagãos, aridez de sucessivos 
desertos, fica sequer sombra das

138
00:12:53,560 --> 00:12:57,840
minhas mãos, reflexão casual de 
meus dedos incertos, estranha 

139
00:12:57,840 --> 00:12:59,440
sombra em movimentos vãos.
