1
00:00:00,680 --> 00:00:14,600
Outros poemas, caminho um tenho 
sonhos cruéis na alma doente, 

2
00:00:14,600 --> 00:00:19,200
sinto um vago receio prematuro, 
vou a medo na aresta do futuro, 

3
00:00:19,200 --> 00:00:23,400
embebido em saudades do 
presente, saudades desta dor que

4
00:00:23,400 --> 00:00:26,440
em vão procuro do peito 
afugentar bem rudemente. 

5
00:00:27,160 --> 00:00:30,440
Devendo o, ao desmaiar sobre o 
poente, cobrir me o coração de 

6
00:00:30,440 --> 00:00:35,720
um véu escuro, porque a dor esta
falta de Harmonia, toda a luz 

7
00:00:35,720 --> 00:00:41,200
desgrenhada que alumia as Almas 
doidamente o céu de agora sem 

8
00:00:41,200 --> 00:00:46,920
ela o coração é quase nada, um 
sol onde inspirasse a madrugada,

9
00:00:47,280 --> 00:00:55,280
porque é só madrugada quando 
chora 2 encontraste me um dia no

10
00:00:55,280 --> 00:00:57,120
caminho. 
Em procura de quê? 

11
00:00:57,640 --> 00:01:02,000
Nem eu o sei. 
Bom dia, companheiro, saudei que

12
00:01:02,000 --> 00:01:08,400
a jornada é maior e sozinho é 
longe, é muito longe há muito 

13
00:01:08,400 --> 00:01:14,000
espinho paraste de repousar, eu 
descansei na venda em que depois

14
00:01:14,000 --> 00:01:19,040
actes, onde depois, ei, bebemos 
cada um do mesmo vinho é no 

15
00:01:19,040 --> 00:01:22,960
Monte escabroso solitário, corta
os pés como a rocha de um 

16
00:01:22,960 --> 00:01:27,760
calvário e queima como a Areia. 
Foi, no entanto, que chorámos a 

17
00:01:27,760 --> 00:01:33,000
dor de cada um e o vinho em que 
choraste era comum, tivemos que 

18
00:01:33,000 --> 00:01:41,200
beber do mesmo pranto 3 fez nos 
bem muito bem esta demora 

19
00:01:42,000 --> 00:01:46,680
enrijou a coragem fatigada eis 
os nossos bordões da caminhada 

20
00:01:47,400 --> 00:01:52,120
vai já rompendo o Sol vamos 
embora este vinho mais virgem do

21
00:01:52,120 --> 00:01:54,800
que a Aurora tão virgem não o 
temos na jornada. 

22
00:01:55,360 --> 00:02:00,520
Enchemos as cabaças pela estrada
daqui ainda este néctar a vigora

23
00:02:00,880 --> 00:02:06,600
cada um por seu lado eu vou 
sozinho, eu quero arrostar só 

24
00:02:06,600 --> 00:02:11,120
todo o caminho eu posso resistir
à grande calma, deixar me chorar

25
00:02:11,120 --> 00:02:16,000
mais e beber mais, perseguir, 
doidamente os meus ideais e ter 

26
00:02:16,000 --> 00:02:24,600
fé e sonhar. 
Encher a alma sem Gabriel. 

27
00:02:29,600 --> 00:02:36,720
Inútil calmaria já acolheram as 
velas, as bandeiras sossegaram 

28
00:02:36,720 --> 00:02:40,560
que tão altas nos tops 
estremularam gaivotas que a voar

29
00:02:40,560 --> 00:02:46,800
desfaleceram pararam de armar, 
emudeceram velhos ritmos que as 

30
00:02:46,800 --> 00:02:49,520
ondas embalaram. 
Que cilada que os ventos nos 

31
00:02:49,520 --> 00:02:51,560
armaram. 
A que foi que tão longe nos 

32
00:02:51,560 --> 00:02:55,480
trouxeram? 
San Gabriel Arcanjo tutelar vem 

33
00:02:55,480 --> 00:02:59,700
outra vez abençoar o mar vem nos
guiar sobre a planície azul, vem

34
00:02:59,700 --> 00:03:04,320
nos levar à Conquista final da 
luz do bem doce. 

35
00:03:04,320 --> 00:03:09,000
Clarão irreal. 
Olha aí, parece o Cruzeiro do 

36
00:03:09,000 --> 00:03:18,120
Sul 2 vem conduzir as naus, as 
Caravelas, outra vez pela noite,

37
00:03:18,320 --> 00:03:21,600
na argentia avivada das 
esquilhas dircia. 

38
00:03:21,920 --> 00:03:25,720
Irmos arando em um montão de 
estrelas outra vez vamos 

39
00:03:26,000 --> 00:03:30,440
côncavas as velas, cuja brancura
rútila de dia o luar dulcifica 

40
00:03:30,840 --> 00:03:35,280
fiéria do luar, não mais deixe 
de envolvê las vem de armas 

41
00:03:35,280 --> 00:03:40,040
Arcanjo, a nebulosa, que do Alan
evapora luminosa, e à noite ela 

42
00:03:40,040 --> 00:03:45,520
descendo onde quietas, fugem as 
velhas Almas, namoradas, Almas 

43
00:03:45,520 --> 00:03:55,040
tristes, severas, resignadas. 
De guerreiros de Santos, de 

44
00:03:55,040 --> 00:04:05,000
poetas, vénus à flor da vaga, o 
seu cabelo verde que o 

45
00:04:05,000 --> 00:04:09,120
trovelinho é arreda e desarreda 
o cheiro, a carne que nos 

46
00:04:09,120 --> 00:04:14,040
embabeda, em que desvios a razão
se perde, pútrido o ventre azul 

47
00:04:14,040 --> 00:04:17,079
e aglutinoso. 
Que a onda crassa num Balanço, 

48
00:04:17,079 --> 00:04:21,399
alaga e reflui um olfato que se 
embriaga como em um sorvo, 

49
00:04:21,480 --> 00:04:27,120
murmurangoso o seu esboço na 
marinha, turva de pé, flutua 

50
00:04:27,720 --> 00:04:32,120
levemente curva, ficam nos pés 
atrás como voando, e as ondas 

51
00:04:32,120 --> 00:04:36,640
lutam como feras, mugem ali em 
que a desfazem, disputando e 

52
00:04:36,640 --> 00:04:38,760
arrastando a na Areia com a 
salsugem. 

53
00:04:43,280 --> 00:04:47,560
Desce por fim sobre o meu 
coração o ouvido irrevocável 

54
00:04:48,400 --> 00:04:53,880
absoluto envolve o grave como 
véu de luto, podes, corpo, ir 

55
00:04:53,880 --> 00:04:58,280
dormir no teu caixão, afronte já
sem rugas, distendidas as 

56
00:04:58,280 --> 00:05:03,640
feições na imortal serenidade 
dorme em fim sem desejo e sem 

57
00:05:03,640 --> 00:05:06,800
saudade das coisas não dobradas 
ou perdidas. 

58
00:05:07,720 --> 00:05:11,080
O Barro que a enquimera 
modulaste quebrou se te nas mãos

59
00:05:11,880 --> 00:05:16,040
viça uma flor. 
Pões lhe o dedo em lamucha sobre

60
00:05:16,040 --> 00:05:21,920
a haste ias andar, sempre fugia 
o chão até que desvairavas do 

61
00:05:21,920 --> 00:05:25,760
terror. 
Corria te um suor de inquietação

62
00:05:31,060 --> 00:05:38,020
lúbrica quando a vejo de tarde 
na Alameda, arrastando o com ar 

63
00:05:38,020 --> 00:05:41,500
de antiga fada pela Rama de 
murta, despontada a saia 

64
00:05:41,500 --> 00:05:45,680
transparente de alvaceda. 
E medito no gozo que promete a 

65
00:05:45,680 --> 00:05:51,280
sua boca fresca, pequenina, e o 
saio mergulhado em renda fina 

66
00:05:51,280 --> 00:05:55,520
sob a curva ligeira do corpete. 
Pela mente me passa em nuvem 

67
00:05:55,520 --> 00:05:58,000
densa, um tropelo infinito de 
desejos. 

68
00:05:58,360 --> 00:06:02,040
Quero às vezes survê la em 
grandes beijos da luxúria febril

69
00:06:02,040 --> 00:06:05,980
na chama intensa desejo num 
transporte de gigante estreita, 

70
00:06:05,980 --> 00:06:10,520
la de rijo entre meus braços, 
até quase esmagar nesses abraços

71
00:06:10,520 --> 00:06:14,440
a sua carne branca e palpitante.
Como da Ásia, nos bosques 

72
00:06:14,440 --> 00:06:18,000
tropicais apertam em espiral, 
aurilusentes os músculos 

73
00:06:18,000 --> 00:06:21,640
hercúleos da serpente aos 
troncos das Palmeiras colossais,

74
00:06:22,240 --> 00:06:26,240
mas depois, quando o peso do 
cansaço acepulta na morna 

75
00:06:26,240 --> 00:06:31,080
letargia dormitando, repousa 
todo o dia à sombra da Palmeira.

76
00:06:31,600 --> 00:06:37,440
O corpo laço assim quisera eu 
exausto, quando, no delírio da 

77
00:06:37,440 --> 00:06:42,080
gula, todo o absorto me 
prostrasse embriagado, semi 

78
00:06:42,080 --> 00:06:45,600
morto. 
O vapor do prazer em sono brando

79
00:06:46,440 --> 00:06:49,600
entre ver sobre o fundo dos 
veicílicos dos fantasmas da 

80
00:06:49,600 --> 00:06:53,680
febre, o incerto mar, mas sempre
sob o azul do seu olhar 

81
00:06:53,840 --> 00:06:57,120
aspirando o frescor do seu 
vestido, como os ébrios chineses

82
00:06:57,120 --> 00:07:01,360
delirantes respiram a dormir. 
O fumo quieto que o seu longo 

83
00:07:01,360 --> 00:07:04,240
cachimbo predileto no ambiente 
espalhava pouco antes. 

84
00:07:05,400 --> 00:07:08,000
Se me lembra, porém, que essa 
doçura. 

85
00:07:08,360 --> 00:07:12,720
Efeito da Inocência em que anda 
em volta, me foge como um sonho,

86
00:07:12,720 --> 00:07:17,120
ou movem solta ao ferir lhe um 
só beijo a face pura que há de 

87
00:07:17,120 --> 00:07:19,160
dissipar. 
Se no momento em que eu tentar 

88
00:07:19,160 --> 00:07:23,040
correr para abraçá la miragem 
inconstante que resvala no 

89
00:07:23,040 --> 00:07:26,480
Horizonte do louco pensamento, 
quero admirá la então 

90
00:07:27,000 --> 00:07:33,560
tranquilamente infeliz apatia de
olhos fitos, como admiro o matiz

91
00:07:33,560 --> 00:07:36,880
dos passaritos, temendo que o 
Rui dos afrugente. 

92
00:07:38,360 --> 00:07:42,240
Para assim conservar lhe a graça
imensa e ver outros mordidos por

93
00:07:42,240 --> 00:07:45,920
desejos de absorver sua carne em
grandes beijos da luxúria 

94
00:07:45,920 --> 00:07:50,640
febril, mas chama intensa, mas 
não posso contar nada. 

95
00:07:50,640 --> 00:07:55,360
Há que exceda a nuvem de desejos
que me esmaga quando a vejo à 

96
00:07:55,360 --> 00:08:01,120
tarde, à sombra, a vaga, 
passeando sozinha na Alameda, 

97
00:08:05,440 --> 00:08:09,280
enfim. 
Levanta o ferro com os lenços 

98
00:08:09,840 --> 00:08:14,760
adeus vai partir o navio longe 
das pedras más do meu Desterro 

99
00:08:14,760 --> 00:08:18,720
ondas do azul oceano submergiu 
que ou desde a partida não sei 

100
00:08:18,720 --> 00:08:24,720
onde vou roteiro da vida quem é 
que o traçou nalguma rocha e 

101
00:08:24,720 --> 00:08:29,320
nota se vai despedaçar com um 
violento fragor mariante deixa 

102
00:08:29,320 --> 00:08:35,720
as cartas de dota maquinista dá 
mais força no vapor nem sei de 

103
00:08:35,760 --> 00:08:39,400
onde venho. 
Que azar me fadou das mágoas que

104
00:08:39,400 --> 00:08:43,000
tenho os ais porque os dou ao 
sossega maldito com a Bandeira 

105
00:08:43,000 --> 00:08:48,520
amarela, pomares alés, mercados,
cidades ao olhar da muralha que 

106
00:08:48,520 --> 00:08:58,200
triste que estou miragens Do 
Nada dizem me quem sou viola 

107
00:08:58,200 --> 00:09:03,400
chinesa. 
Ao longo da viola amorosa, vai 

108
00:09:03,400 --> 00:09:07,120
adormecendo a parelenda. 
Sem que amadornado, eu atendo AA

109
00:09:07,120 --> 00:09:11,840
lengalenga fastidiosa, sem que o
meu coração se prenda enquanto 

110
00:09:11,840 --> 00:09:16,920
nasal minuciosa ao longo da 
viola amorosa vai adormecendo a 

111
00:09:16,920 --> 00:09:21,040
paralenda, mas que cicatriz 
melindrosa a nele, que essa 

112
00:09:21,040 --> 00:09:25,920
viola ofenda e faz que as azitas
destenda numa agitação dolorosa 

113
00:09:26,520 --> 00:09:34,040
ao longo da viola morosa porque 
eu melhor, enfim. 

114
00:09:35,080 --> 00:09:39,480
É não ouvir nem ver passarem 
sobre mim e nada me doer, 

115
00:09:40,080 --> 00:09:43,880
sorrindo interiormente com as 
pálpebras serradas às águas da 

116
00:09:43,880 --> 00:09:46,360
torrente. 
Já estão longe, passadas a 

117
00:09:46,360 --> 00:09:51,520
rixas, tumultos, lutas, não me 
fazerem dano alheio às vãs, 

118
00:09:51,520 --> 00:09:56,760
labutas às estações do ano, 
passar o estio, o outono, a 

119
00:09:56,760 --> 00:10:02,400
poda, a cava e a regra. 
E eu dormi num sono debaixo de 

120
00:10:02,400 --> 00:10:06,360
uma Pedra. 
Melhor até se o acaso o leite me

121
00:10:06,360 --> 00:10:10,840
reserva no prazo extenso e 
arraso apenas sobre a erva que 

122
00:10:10,840 --> 00:10:16,160
abriu copioso em sop e esvelto 
em intervalos fostigo megalope 

123
00:10:16,160 --> 00:10:19,880
de bando de cavalos, ou no 
serrano Mato abrigas tão 

124
00:10:19,880 --> 00:10:24,480
propício onde o viver ingrato 
dispõe ao sacrifício das vidas, 

125
00:10:24,760 --> 00:10:27,560
mortes duras ruam pelas 
quebradas com choques de 

126
00:10:27,560 --> 00:10:32,240
armaduras e tinidos de espadas, 
ou sob o piso até infame e vil 

127
00:10:32,240 --> 00:10:34,960
da rua. 
Onde a torva a lei rompe, 

128
00:10:34,960 --> 00:10:39,520
tumultua se estorce, vucifera 
selvagem nos conflitos com 

129
00:10:39,560 --> 00:10:42,560
impetos de fera nos olhos, 
saltos, gritos, roubos, 

130
00:10:42,560 --> 00:10:46,320
assassinatos, horas já mais 
tranquilas em brutos, pugilados,

131
00:10:46,320 --> 00:10:51,040
fraturam, se as maxilas e eu 
sobre a Terra firme, compacta, 

132
00:10:51,720 --> 00:10:58,400
recalcada muito quietinho a rir 
me e não me doer nada. 

133
00:11:02,760 --> 00:11:06,520
E lhe regou de lágrimas os pés e
os enxugava com os cabelos da 

134
00:11:06,520 --> 00:11:11,680
sua cabeça. 
Evangelho de são Lucas, ó 

135
00:11:11,680 --> 00:11:17,000
Madalena, ó cabelos de rastos, 
plírio, poluído, branca, flor 

136
00:11:17,000 --> 00:11:22,320
inútil, meu coração, velha moeda
fútil e sem relevo, os 

137
00:11:22,320 --> 00:11:27,600
caracteres gastos de resignar se
torpemente dúctil, desespero, 

138
00:11:28,160 --> 00:11:32,040
nudez sem os castos. 
Quem também fosse, ou cabelos de

139
00:11:32,040 --> 00:11:37,040
rastos, ensanguentado, 
enxovalhado inútil dentro do 

140
00:11:37,040 --> 00:11:42,760
peito, abominável cómico morrer 
tranquilo, o fastio da cama, ou 

141
00:11:42,800 --> 00:11:48,640
Redenção do mármore anatómico, 
amargura nudeste sem os castos, 

142
00:11:49,320 --> 00:11:56,160
sangrar, poluir, se ir de rastos
na lama, à alma da Lena, ou 

143
00:11:56,160 --> 00:12:07,200
cabelos de rastos. 
Vida choveu, e logo da Terra o 

144
00:12:07,200 --> 00:12:09,480
mosa e rompe o campo das 
liliáceas. 

145
00:12:10,200 --> 00:12:13,720
Foi bem fecunda a estação 
peluviosa que vigor no campo das

146
00:12:13,720 --> 00:12:20,560
liliáceas calquem recalquem não 
o afogam deixem não calquem que 

147
00:12:20,560 --> 00:12:23,960
tudo o invadam, não as 
extinguem, porque as degradam 

148
00:12:24,440 --> 00:12:26,480
para que as calcam não as 
afogam. 

149
00:12:26,880 --> 00:12:32,200
Olhem o fogo que anda na Serra, 
é a queimada que loumarel podem 

150
00:12:32,200 --> 00:12:37,280
calcá lo deitar lhe Terra que 
não apagam o loumarel deixem não

151
00:12:37,280 --> 00:12:42,760
calquem, deixem arder se aqui o 
pisam rebenta além isso arde, 

152
00:12:42,760 --> 00:12:52,480
tudo isso que tem deita lhe fogo
é para arder nesgas agudas do 

153
00:12:52,480 --> 00:12:55,040
Areal e gaivotas que voais em 
redor do navio. 

154
00:12:55,920 --> 00:12:59,080
Tornei o meu cérebro mole 
esmeralda viva do canal e 

155
00:12:59,080 --> 00:13:03,240
desertos inundados de sol, meu 
pobre cérebro inconsequente e 

156
00:13:03,240 --> 00:13:06,520
doentio, no qual uma rede se 
desenha complicada de 

157
00:13:06,520 --> 00:13:10,600
sofrimentos irregulares, águas 
que filtrais na Areia antes que 

158
00:13:10,600 --> 00:13:15,160
o crepúsculo venha, o crepúsculo
e as larvas tubulares a impureza

159
00:13:15,160 --> 00:13:19,800
inútil disse olveia que o Sol 
sem mancha, o cristal sereno 

160
00:13:19,800 --> 00:13:24,760
volatilize ao seu doce calor, a 
fria e sangue liquescência um 

161
00:13:24,760 --> 00:13:27,960
hálito. 
Não embaceará de veneno indecisa

162
00:13:27,960 --> 00:13:32,600
incolor do azul o brilho e a 
viva transparência recortes 

163
00:13:32,600 --> 00:13:35,400
vivos das Areias. 
Tomei o meu corpo e abrir lhe as

164
00:13:35,400 --> 00:13:37,720
veias. 
O meu sangue em tornei o 

165
00:13:37,880 --> 00:13:42,280
difundiu, o sob o rútilo sol na 
Areia Branca, como em um lençol 

166
00:13:42,560 --> 00:13:50,920
ao sol triunfante sobre o qual 
desmaio cristalizações Salinas, 

167
00:13:50,920 --> 00:13:54,560
mirrai na Areia o plasma vivas, 
não se desenvolvam as 

168
00:13:54,560 --> 00:13:57,960
petomaínas. 
Que adocicado, que ouve sessão 

169
00:13:57,960 --> 00:14:01,080
de cheiro. 
Petorescina flor de lilás, 

170
00:14:01,080 --> 00:14:05,040
cadaverina branca flor do 
espinheiro, só o meu crânio fica

171
00:14:05,120 --> 00:14:09,520
rolando, o inseputo no Areal ao 
abandono e ao acaso do Simon que

172
00:14:09,520 --> 00:14:24,160
o Sol e o sal o purifique, meus 
olhos apagados vendo a água 

173
00:14:24,160 --> 00:14:26,640
cair. 
Das velhas, dos telhados cair 

174
00:14:27,520 --> 00:14:32,120
sempre cair, das velhas dos 
telhados cair, quase morrer meus

175
00:14:32,120 --> 00:14:36,840
olhos apagados e cansados de ver
meus olhos afoguei vos nova 

176
00:14:36,840 --> 00:14:45,920
tristeza ambiente caí e derramei
vos como a água morrente branco 

177
00:14:45,920 --> 00:14:51,560
e vermelho, a dor. 
Forte imprevista ferindo me a 

178
00:14:51,560 --> 00:14:54,480
imprevista de banca e de 
imprevista foi um deslumbramento

179
00:14:54,480 --> 00:14:58,240
que me endoidou a vista fez me 
perder a vista, fez me fugir à 

180
00:14:58,240 --> 00:15:02,640
vista num doces vem imendo como 
um deserto imenso, branco, 

181
00:15:02,640 --> 00:15:06,160
deserto imenso, resplandecente e
imenso fez se em redor de mim 

182
00:15:06,160 --> 00:15:10,840
todo o meu ser suspenso, não 
sinto, já não penso pairo na luz

183
00:15:10,840 --> 00:15:15,160
suspenso, que delícia sem fim na
inundação da luz, banhando os 

184
00:15:15,160 --> 00:15:19,080
céus a fluxo no êxtase da luz 
vejo passar, desfila. 

185
00:15:19,240 --> 00:15:22,440
Seus pobres corpos duche que a 
distância reduz a mesquinha e 

186
00:15:22,440 --> 00:15:27,200
reduz no fundo da pupila na 
Areia imensa e plana ao longe a 

187
00:15:27,200 --> 00:15:31,040
caravana sem fim, a caravana na 
linha do Horizonte da enorme dor

188
00:15:31,040 --> 00:15:34,760
humana da insígnia, dor humana 
inútil, dor humana marcha 

189
00:15:34,800 --> 00:15:38,720
curvada a fronte até ao chão 
curvados, exaustos e curvados, 

190
00:15:38,720 --> 00:15:42,360
vão um a um curvados os seus 
magros perfis escravos 

191
00:15:42,360 --> 00:15:46,720
condenados no poente, recortados
em negro, recortados, magros, 

192
00:15:47,120 --> 00:15:50,960
mesquinhos, VIS. 
A cada golpe trem os que de medo

193
00:15:50,960 --> 00:15:55,360
trem e as pálpebras me trem 
quando o açoite vibra estala e 

194
00:15:55,360 --> 00:15:58,640
apenas gem pá avidamente gemem. 
A cada golpe gemem que os 

195
00:15:58,640 --> 00:16:00,720
desequilibra sobre o açoite 
caem. 

196
00:16:00,720 --> 00:16:05,960
A cada golpe caem, erguem se 
logo caem, suereos o terror, até

197
00:16:05,960 --> 00:16:10,080
que enfim desmaiem por uma vez 
desmaiem a luz que enfim se 

198
00:16:10,080 --> 00:16:15,640
desmaiem vencida a enfim a dor, 
e ali fiquem serenos de costas e

199
00:16:15,640 --> 00:16:21,280
serenos beijem os a luz serenos.
Nas amplas Fontes calmas, aos 

200
00:16:21,280 --> 00:16:24,960
céus claros e amenos, doces 
jardins, a menos onde se sofre 

201
00:16:24,960 --> 00:16:30,440
menos, onde dormem as Almas, a 
dor deserto imenso, branco, 

202
00:16:30,440 --> 00:16:34,880
deserto imenso, resplandecente e
imenso foi um deslumbramento 

203
00:16:35,240 --> 00:16:39,600
todo o meu ser suspenso não 
sinto, já não penso para na luz 

204
00:16:39,600 --> 00:16:43,360
suspenso não doces, vem e mento 
ou morte vem depressa, acorda, 

205
00:16:43,360 --> 00:16:46,360
vem depressa, acorde me depressa
vem me enxugar o suor que o 

206
00:16:46,360 --> 00:16:49,120
instrutor começa. 
É cumprir a promessa. 

207
00:16:49,120 --> 00:17:00,880
Já o sonho começa tudo vermelho 
em flor, desejos se medito no 

208
00:17:00,880 --> 00:17:04,760
gozo que promete a sua boca 
fresca e pequenina, e o seio 

209
00:17:04,760 --> 00:17:08,200
mergulhado em renda fina sob a 
curva ligeira do corpete. 

210
00:17:08,599 --> 00:17:12,079
Desejo nuns transportes de 
gigante, estreitada de rijo 

211
00:17:12,079 --> 00:17:15,560
entre meus braços, até quase 
esmagar nestes abraços a sua 

212
00:17:15,560 --> 00:17:18,839
carne branca e palpitante. 
Como da Ásia, nos bosques 

213
00:17:18,839 --> 00:17:22,200
tropicais apertam em espiral, 
aureluzentes os músculos 

214
00:17:22,200 --> 00:17:25,640
hercúleos da serpente aos 
troncos das Palmeiras colossais.

215
00:17:26,359 --> 00:17:29,840
E como logo depois, quando o 
cansaço a sepulta na morna 

216
00:17:29,840 --> 00:17:33,680
letargia dormitando a repousa 
todo o dia à sombra da Palmeira,

217
00:17:33,920 --> 00:17:38,200
o corpo laço eu quis, era também
adormecido dos fantasmas da 

218
00:17:38,200 --> 00:17:42,960
febre, ver o mar, mas sempre sob
o azul do seu olhar, em volta do

219
00:17:42,960 --> 00:17:46,160
calor do seu vestido. 
Como os ébrios chineses 

220
00:17:46,160 --> 00:17:50,600
delirantes aspiram, já dormindo,
o fumo quieto, que o seu longo 

221
00:17:50,600 --> 00:17:53,640
cachimbo perdeu metro no 
ambiente, espalhava pouco antes 

222
00:17:58,080 --> 00:18:04,600
madrigal aquela enorme frieza 
não intrista se a ninguém ela 

223
00:18:04,600 --> 00:18:08,640
estende, se o seu desdenho à sua
própria beleza, quando o solta 

224
00:18:08,640 --> 00:18:12,040
do vestido, sai da frescura do 
banho, o seu cabelo castanho, 

225
00:18:12,440 --> 00:18:17,960
esse cabelo comprido. 
Que frio eu desconsolo deixa 

226
00:18:17,960 --> 00:18:22,520
ficar se pendente, em vez de 
feito em serpente, ir enroscar 

227
00:18:22,520 --> 00:18:33,280
se lhe ao colo soneto de gelo 
engenheiro sonhador as crianças 

228
00:18:33,280 --> 00:18:36,160
de ouro não as vais derruír 
deixa o destino levar te no seu 

229
00:18:36,160 --> 00:18:40,520
berço de bambino, porque podes 
perder esse Tesouro tens na 

230
00:18:40,520 --> 00:18:43,000
crença um Farol. 
Nem o procuras. 

231
00:18:43,720 --> 00:18:47,640
Mas venho ver luz ir sobre o 
infinito e o homem que pensou 

232
00:18:48,200 --> 00:18:54,040
foi um precito buscando a luz em
vão sem braço escuras eu mesmo 

233
00:18:54,040 --> 00:18:59,280
quero a fé e não a tenho um 
resto de Batel quisera um lanho 

234
00:18:59,280 --> 00:19:03,960
para não afundir na treva imensa
o Deus, o mesmo Deus que te fez 

235
00:19:03,960 --> 00:19:08,520
crente nem saibas que esse Deus 
é omnipotente foi quem arrebatou

236
00:19:08,520 --> 00:19:17,640
a minha crença. 
Rosas de inverno coralas que 

237
00:19:17,640 --> 00:19:22,160
floristas ao sol do inverno, 
avaro tão glácido e tão claro 

238
00:19:22,160 --> 00:19:26,320
por estas manhãs tristes, 
gloriosa floração surdida por 

239
00:19:26,320 --> 00:19:30,960
engano no agonizar do ano, tão 
fora da estação, sorrindo vos 

240
00:19:31,160 --> 00:19:35,160
amigas, nos ásperos caminhos aos
olhos dos velhinhos, às Almas 

241
00:19:35,160 --> 00:19:39,200
das mendigas desse Natal de 
inválidos transmite vos a bênção

242
00:19:39,200 --> 00:19:42,240
com que vos recompensam os seus 
sorrisos pálidos. 

243
00:19:46,400 --> 00:19:49,520
A João Vasco, na ceia da noite 
de despedida, para uma longa 

244
00:19:49,520 --> 00:19:56,200
separação, a boémia não morreu, 
eis nos com cabelos brancos e, 

245
00:19:56,200 --> 00:20:00,400
todavia, aos barrancos do seu 
destino e do meu, se nos 

246
00:20:00,400 --> 00:20:03,320
quebraram as pernas, as asas, 
não as partiram. 

247
00:20:03,960 --> 00:20:07,320
Em que altos sonhos deliram as 
nossas Almas eternas, depois de 

248
00:20:07,320 --> 00:20:09,080
tantos baldões dever a ter sido 
a fé. 

249
00:20:09,640 --> 00:20:12,920
Temos tido o pontapé das mais 
caras ilusões e não morre da 

250
00:20:12,920 --> 00:20:19,000
Mocidade após enganos, enganos, 
pois só daqui a 100 anos, 

251
00:20:19,000 --> 00:20:27,280
choraremos de saudade, ó Terra 
doce e boa, ó minha amante 

252
00:20:27,280 --> 00:20:32,440
gorda, desculpa, me perdoa se te
esqueci me embora pó doce, 

253
00:20:32,440 --> 00:20:35,480
esposa de ingra sobre os 2 pés 
sentada. 

254
00:20:39,560 --> 00:20:44,440
Um fio a desdobar que não 
termina degrinaldas das rosas de

255
00:20:44,440 --> 00:20:56,120
tocar a miragem para a cogitar 
no meu cabelo translinhava um 

256
00:20:56,120 --> 00:20:59,360
vento de oração. 
Qual a acha que ardeu feita 

257
00:20:59,360 --> 00:21:04,240
carvão a água que esfriou tornar
a gelo ajoelhei? 

258
00:21:05,200 --> 00:21:09,560
O meu peito era um vulcão no céu
lagrimo Java, o 7 estrelo e o 

259
00:21:09,560 --> 00:21:12,280
seu fino perfil. 
Pude ainda vê lo num halo de 

260
00:21:12,280 --> 00:21:17,240
pudor e devoção, mas no meu 
coração ardente Lava uma nuvem 

261
00:21:17,240 --> 00:21:20,320
errática, poesava e que ao 
longe, como um broçou, dosas, 

262
00:21:20,320 --> 00:21:24,680
fraguas hóstia Santa de luz 
desfeita em chuva, qual baguina 

263
00:21:24,680 --> 00:21:29,480
de amor de Deus viúva no Rosário
a rezar vertendo águas 

264
00:21:34,120 --> 00:21:38,840
transfiguração. 
Estrela do pastor sal que me 

265
00:21:38,840 --> 00:21:42,960
escuda mais te afastas de mim, 
mas eu te vejo num instante em 

266
00:21:42,960 --> 00:21:46,520
que me deste aquele beijo a 
charneca ajoelho divina e muda 

267
00:21:47,000 --> 00:21:51,360
febrícita o Arco-Íris de desejo,
senhora do Amparo nos acuda, o 

268
00:21:51,360 --> 00:21:55,480
Rouge dos vagalhões hoje caluda 
o recuo, me sal mundial, vozes 

269
00:21:55,480 --> 00:22:01,560
do brajo, mulher forte, remeu me
a tua prece penitente pagão bem 

270
00:22:01,560 --> 00:22:04,880
lusitano, e os braços ao céu 
quando anoitece. 

271
00:22:05,280 --> 00:22:10,280
Judas de vaga inspiras de 
pecado, eis me o verbo de Deus, 

272
00:22:10,520 --> 00:22:20,330
sacramentado no rebuço de um 
Capote alentejano, gravado no 

273
00:22:20,330 --> 00:22:24,010
largo Recording Studio, no 
Porto, em fevereiro de 2023. 

274
00:22:24,610 --> 00:22:28,130
Voz de Pedro lamares, apoio à 
direção e revisão, Carolina 

275
00:22:28,130 --> 00:22:30,730
rocha, cuidados técnicos, ruca 
Lacerda.

