1
00:00:03,520 --> 00:00:08,600
Oi, oi, oi, oi, oi, oi. 
Chegou a hora da nossa sessão 

2
00:00:08,600 --> 00:00:11,360
improrrogável. 
A primeira do dia, chegou a hora

3
00:00:11,360 --> 00:00:14,080
do pequeno. 
Expediente podcast para você 

4
00:00:14,080 --> 00:00:17,240
pensar com profundidade, eu sou 
Flávia Holanda gaeta. 

5
00:00:17,280 --> 00:00:19,920
E conduzirei os trabalhos a 
partir de agora. 

6
00:00:20,160 --> 00:00:34,840
Oi, oi, oi, oi, oi, oi. 
Oi, oi, sejam bem vindos. 

7
00:00:34,840 --> 00:00:38,520
Que maravilha que vocês estão 
aqui de volta é. 

8
00:00:38,520 --> 00:00:40,800
Tem momentos que eu demoro um 
pouco mais. 

9
00:00:40,800 --> 00:00:43,040
Tem momentos que eu demoro um 
pouco menos. 

10
00:00:43,040 --> 00:00:48,000
Mas o importante é que eu sempre
volto com reflexões, reflexões 

11
00:00:48,000 --> 00:00:51,840
que mexem com meu espírito e 
provavelmente mexe com você 

12
00:00:51,840 --> 00:00:56,680
também, porque é o mais natural 
e típico da natureza humana. 

13
00:00:57,240 --> 00:01:01,240
Esse episódio nasce de uma cena 
que aconteceu no consultório do 

14
00:01:01,240 --> 00:01:03,960
meu analista e que desde então 
não me largou. 

15
00:01:04,480 --> 00:01:08,400
E se eu estou trazendo pra cá 
pra esse espaço que é nosso, é 

16
00:01:08,400 --> 00:01:11,720
porque eu tenho certeza de que 
não é só sobre mim, é sobre 

17
00:01:11,720 --> 00:01:18,360
você, é sobre todos nós, não é? 
Meu analista me perguntou 

18
00:01:18,360 --> 00:01:21,480
semanas atrás o que significava 
ser mulher. 

19
00:01:21,480 --> 00:01:25,680
Assim, direto, sem contexto 
preparatório, sem nenhuma 

20
00:01:25,680 --> 00:01:29,080
construção. 
Sabe aquela progressiva? 

21
00:01:29,480 --> 00:01:33,720
A pergunta veio como vem em uma 
pergunta de um analista, no 

22
00:01:33,720 --> 00:01:37,000
momento exato em que eu não 
estava preparada para Ela E Eu 

23
00:01:37,000 --> 00:01:41,440
que passo os dias destrinchando 
conceitos complexos. 

24
00:01:41,800 --> 00:01:44,680
Que construí uma carreira 
inteira em cima da minha 

25
00:01:44,680 --> 00:01:47,440
capacidade de traduziu. 
Difícil em claro. 

26
00:01:47,800 --> 00:01:50,640
Fiquei completamente muda sem 
fala. 

27
00:01:50,760 --> 00:01:53,280
Eu disse literalmente, eu não 
sei. 

28
00:01:53,680 --> 00:01:56,880
E fiquei com essa frase 
reverberando durante dias, 

29
00:01:57,320 --> 00:02:01,240
porque eu sabia. 
Que não era verdade, que eu não 

30
00:02:01,240 --> 00:02:05,160
sabia e ao mesmo tempo era a 
coisa mais honesta que eu já 

31
00:02:05,160 --> 00:02:08,400
tinha dito naquele consultório. 
Eu não sei explicar o que 

32
00:02:08,400 --> 00:02:11,280
significa ser mulher. 
E aqui eu preciso abrir um 

33
00:02:11,280 --> 00:02:13,720
parêntese, porque é importante 
entender. 

34
00:02:14,000 --> 00:02:17,760
Porque o silêncio diante de 
certas perguntas não é uma 

35
00:02:17,760 --> 00:02:20,480
falha. 
É sintoma de que a pergunta toca

36
00:02:20,480 --> 00:02:24,200
uma camada que a linguagem 
conceitual não foi feita para 

37
00:02:24,200 --> 00:02:26,880
alcançar. 
Eu sei explicar coisas difíceis.

38
00:02:27,080 --> 00:02:30,200
Faço isso todos os dias, com 
previsão e com muito gosto, 

39
00:02:30,200 --> 00:02:34,360
porque eu gosto de enfrentar um 
caso difícil, uma situação 

40
00:02:34,360 --> 00:02:36,720
difícil. 
Mas quando alguém me pede para 

41
00:02:36,720 --> 00:02:41,320
definir o que é ser mulher, eu 
percebo que essa pergunta se 

42
00:02:41,320 --> 00:02:44,880
parece como o que é estar vivo? 
O que é a vida? 

43
00:02:44,880 --> 00:02:49,040
Eu posso descrever processos, 
posso citar filósofos, posso 

44
00:02:49,040 --> 00:02:54,800
cercar o conceito por todos os 
lados e ainda assim o centro 

45
00:02:54,800 --> 00:02:58,760
permanece intocado. 
Porque ele não é conceito, é 

46
00:02:58,760 --> 00:03:01,520
experiência. 
Experiência, por definição, 

47
00:03:01,600 --> 00:03:05,920
precede a palavra que tenta 
descrevê la é aqui onde entra a 

48
00:03:05,920 --> 00:03:08,520
Clarice? 
Clarice Lispector entrou na 

49
00:03:08,520 --> 00:03:13,360
minha vida fazendo uma coisa que
quase nenhum outro autor em 

50
00:03:13,360 --> 00:03:16,960
língua portuguesa tentou com a 
mesma radicalidade. 

51
00:03:17,560 --> 00:03:21,680
Ela tentou escrever o que 
acontece antes do pensamento 

52
00:03:21,680 --> 00:03:25,560
virar palavra em a paixão. 
Segundo GH, publicado em 1964, a

53
00:03:25,560 --> 00:03:28,720
protagonista entra no quarto da 
empregada, encontra uma barata 

54
00:03:28,720 --> 00:03:32,440
na parede de um armário e, a 
partir desse encontro 

55
00:03:32,440 --> 00:03:35,360
aparentemente banal, mergulha 
numa experiência tão crua. 

56
00:03:38,600 --> 00:03:42,760
Então, anterior a qualquer 
categoria mental, que a 

57
00:03:42,760 --> 00:03:45,400
linguagem do romance começa a 
rachar. 

58
00:03:45,400 --> 00:03:50,440
As frases se repetem, voltam 
sobre si mesma, se contradizem. 

59
00:03:50,440 --> 00:03:54,320
Porque Clarice não está tentando
narrar uma história. 

60
00:03:54,320 --> 00:03:58,800
Ela está tentando reproduzir, na
escrita, o momento exato em que 

61
00:03:58,800 --> 00:04:00,840
o pensamento ainda não se 
organizou. 

62
00:04:01,160 --> 00:04:02,760
E esse é o ponto que me 
interessa. 

63
00:04:03,160 --> 00:04:06,600
Clarice compreendia que existiam
experiências que só podem ser 

64
00:04:06,600 --> 00:04:09,680
escritas. 
Se eu aceitar que a escrita vai 

65
00:04:09,680 --> 00:04:13,080
falhar parcialmente, que as 
palavras vão chegar perto, mas 

66
00:04:13,080 --> 00:04:17,040
não vão fechar o circo, eu leio,
GHE, reconheço ali o que 

67
00:04:17,040 --> 00:04:20,360
aconteceu comigo no consultório.
A pergunta do meu analista me 

68
00:04:20,360 --> 00:04:25,640
empurrou pra uma zona onde eu 
sei que existe algo imenso, mas 

69
00:04:25,640 --> 00:04:29,240
o ato de nomear reduz o que eu 
estou tentando dizer. 

70
00:04:29,920 --> 00:04:34,200
E aqui eu trago Mary shelly. 
Porque o caso dela me fascina 

71
00:04:34,200 --> 00:04:37,760
por uma razão muito específica. 
Mary Shelley escreveu 

72
00:04:38,160 --> 00:04:42,720
frankenstein em 1818. 
Ela tinha 19 anos, tinha acabado

73
00:04:42,800 --> 00:04:47,280
de perder uma filha prematura, 
uma filha que viveu 11 dias. 

74
00:04:47,280 --> 00:04:51,600
E Mary registrou no diário que 
sonhava com a filha voltando à 

75
00:04:51,600 --> 00:04:56,520
vida, que esfregava o corpo da 
da criança perto da lareira, 

76
00:04:56,760 --> 00:04:59,960
imaginando que o calor pudesse 
trazê la de volta. 

77
00:05:01,240 --> 00:05:05,400
Meses depois, durante uma 
temporada com o percy shelly e 

78
00:05:05,400 --> 00:05:09,560
Lorde byron nos arredores do 
Lago de Genebra, ela começou a 

79
00:05:09,560 --> 00:05:12,960
escrever a história sobre um 
homem que cria vida em 

80
00:05:12,960 --> 00:05:15,960
laboratório e depois abandona o 
que criou. 

81
00:05:16,480 --> 00:05:21,920
Frankenstein é muita coisa. 
É ficção científica, é romance 

82
00:05:21,920 --> 00:05:27,280
gótico, é terror clássico, é 
crítico ao prometer moderno. 

83
00:05:27,560 --> 00:05:30,800
Mas quando eu leio esse livro, 
sabendo que Mary Shell estava 

84
00:05:30,800 --> 00:05:34,480
vivendo no corpo, no luto, na 
maternidade interrompida, eu 

85
00:05:34,480 --> 00:05:37,560
enxergo ali uma compreensão 
profundamente feminina do que 

86
00:05:37,560 --> 00:05:41,440
significa criar. 
Criar não é um ato técnico. 

87
00:05:41,440 --> 00:05:45,560
Criar é um compromisso 
irreversível com aquilo que eu 

88
00:05:45,560 --> 00:05:48,880
trouxe ao mundo. 
E o monstro, a criatura de 

89
00:05:48,880 --> 00:05:52,960
frankenstein, não se torna 
violento porque nasceu mal, se 

90
00:05:52,960 --> 00:05:56,200
torna violento porque foi 
abandonado por quem o criou. 

91
00:05:56,720 --> 00:06:02,040
Mary shelly, aos 19 anos, em 
luto, escreveu que muitos 

92
00:06:02,040 --> 00:06:06,160
filósofos não conseguiram 
articular em tratados inteiros 

93
00:06:06,880 --> 00:06:10,160
que a responsabilidade pela 
criação não termina no ato de 

94
00:06:10,160 --> 00:06:13,160
criar. 
E o que me toca nessa história 

95
00:06:13,160 --> 00:06:15,360
não é apenas o livro, é a 
circunstância. 

96
00:06:15,520 --> 00:06:18,880
Uma mulher de 19 anos cercada 
por homens brilhantes que a 

97
00:06:18,880 --> 00:06:22,920
tratavam como interlocutora, mas
também como. 

98
00:06:24,720 --> 00:06:29,360
Parte importante da vida de 
pearce shellen ela, que tinha 

99
00:06:29,360 --> 00:06:35,040
ele como o seu abrigo, a sua 
estrutura entregou a escrita na 

100
00:06:35,040 --> 00:06:38,480
escrita, um lugar onde sua 
experiência de perda, que era 

101
00:06:38,480 --> 00:06:41,200
intransferível e solitária, se 
tornou universal. 

102
00:06:41,880 --> 00:06:45,160
Ela transformou a dor mais 
particular que existe, a morte 

103
00:06:45,160 --> 00:06:48,880
de uma filha em ficção em um 
mundo em que o mundo inteiro lê 

104
00:06:49,120 --> 00:06:53,760
a 2 séculos, não é? 
E isso é uma forma de tradução 

105
00:06:53,760 --> 00:06:55,600
do que eu reconheço como 
feminino. 

106
00:06:55,920 --> 00:07:00,320
Não porque só mulheres fazem 
isso, mas porque Mary fez a 

107
00:07:00,320 --> 00:07:02,960
partir de um lugar do corpo que 
só ela ocupa. 

108
00:07:03,480 --> 00:07:08,840
E veja aqui Mary shelly quando 
coloca o Vitor frankenstein e a 

109
00:07:08,840 --> 00:07:14,000
criatura, 2 homens lidando com a
própria existência nas próprias 

110
00:07:14,000 --> 00:07:18,040
consequências dos atos. 
Com esse orgulho, com o ego, é 

111
00:07:18,040 --> 00:07:22,680
como se a criatura também fosse 
uma espécie de cristalização da 

112
00:07:22,680 --> 00:07:26,360
neurose de Vitor, aquele que 
tinha um orgulho intelectual 

113
00:07:26,360 --> 00:07:30,480
desmedido, que não media 
naturalmente as consequências. 

114
00:07:30,480 --> 00:07:33,320
Não cedia. 
Preferia criar um outro 

115
00:07:33,320 --> 00:07:38,120
problema, preferia criar uma 
outra solução, transferindo. 

116
00:07:38,520 --> 00:07:41,240
Aquilo que era de sua 
responsabilidade para outrem, 

117
00:07:41,240 --> 00:07:44,920
até tomar consciência de tudo 
aquilo e vai até as últimas 

118
00:07:44,920 --> 00:07:47,600
consequências. 
Victor frankenstein e a criatura

119
00:07:48,160 --> 00:07:52,280
esse livro é ele é lindo. 
Não somente pela história que a 

120
00:07:52,280 --> 00:07:57,320
Mary shelek transpõe, mas pela 
quantidade de vezes. 

121
00:07:57,840 --> 00:08:02,840
Que aquela mulher aparece em 
todos os personagens, em todas 

122
00:08:02,840 --> 00:08:06,720
as manifestações mais íntimas de
cada uma daquelas entidades, de 

123
00:08:06,720 --> 00:08:11,120
cada um daqueles diálogos. 
Ali eu vejo uma mulher, uma 

124
00:08:11,120 --> 00:08:14,440
mulher, uma mulher. 
Mas o que significa ser mulher? 

125
00:08:15,000 --> 00:08:18,120
E aí eu trago uma outra mulher 
pra gente conversar a respeito. 

126
00:08:18,120 --> 00:08:21,160
Depois tem Elis Regina, que é um
caso à parte, porque nela o 

127
00:08:21,160 --> 00:08:24,320
feminino não está no texto, está
no corpo. 

128
00:08:24,720 --> 00:08:28,280
Quando eu ouço a Elis cantando 
águas de março, aquela gravação 

129
00:08:28,280 --> 00:08:31,760
de 1974 com Tom Jobim ou com os 
nossos pais, de Belchior, 

130
00:08:31,760 --> 00:08:35,640
gravação de 1976, o que me 
atinge não é apenas a técnica 

131
00:08:35,640 --> 00:08:38,320
vocal, que era extraordinária, é
a qualidade da entrega. 

132
00:08:38,320 --> 00:08:44,240
Elis cantava como se não 
houvesse separação entre ela e a

133
00:08:44,240 --> 00:08:48,560
música, como se o corpo inteiro 
fosse um instrumento e cada nota

134
00:08:48,560 --> 00:08:55,760
custasse um pedaço dela. 
Eu já vi muitas gravações da 

135
00:08:55,760 --> 00:08:59,560
Elis e o que me impressiona toda
vez é que ela não interpreta a 

136
00:08:59,560 --> 00:09:03,240
canção, né? 
Ela mora naquela canção em como 

137
00:09:03,240 --> 00:09:07,560
nossos pais, quando ela chega no
verso sobre perceber que, apesar

138
00:09:07,560 --> 00:09:12,120
de termos feito tudo, ainda 
somos os mesmos e vivemos como 

139
00:09:12,120 --> 00:09:16,480
os nossos pais, exige. 
Existe uma indignação ali que 

140
00:09:16,480 --> 00:09:18,640
não é performática, né? 
É? 

141
00:09:19,000 --> 00:09:20,760
E nem é qualquer recurso de 
palco. 

142
00:09:21,120 --> 00:09:25,800
É uma mulher de 31 anos que sabe
do que está falando e que 

143
00:09:25,800 --> 00:09:29,360
decidiu não proteger nenhuma 
parte de si enquanto diz o que 

144
00:09:29,360 --> 00:09:32,680
precisa ser dito. 
E essa decisão de não se 

145
00:09:32,680 --> 00:09:39,320
proteger não é essa decisão de 
simplesmente não se proteger, é.

146
00:09:39,320 --> 00:09:42,160
Isso tem um custo que a plateia 
raramente mede. 

147
00:09:42,520 --> 00:09:45,480
Porque para quem assiste é o 
espetáculo, é lindo, é 

148
00:09:45,480 --> 00:09:48,880
arrepiante, mas para quem está 
ali em cima, exposta, daquele 

149
00:09:48,880 --> 00:09:55,040
jeito, é alguma coisa que as 
palavras fogem, traem a 

150
00:09:55,040 --> 00:09:59,040
possibilidade de descrição. 
Existe uma generosidade nesse 

151
00:09:59,040 --> 00:10:02,440
tipo de entrega? 
Existe também um risco enorme, 

152
00:10:02,880 --> 00:10:07,360
porque quem se entrega assim não
tem como se proteger. 

153
00:10:07,880 --> 00:10:11,840
Eu vejo nessa entrega de Elis. 
Algo que reconheço em mim e 

154
00:10:11,840 --> 00:10:15,480
muitas mulheres que conheço, uma
disposição para estar inteira 

155
00:10:15,480 --> 00:10:20,200
naquilo que faz, sem reserva, 
sem rede de segurança, sabendo 

156
00:10:20,200 --> 00:10:25,240
que isso pode custar muito mais 
do que a gente imaginava quando 

157
00:10:25,240 --> 00:10:31,200
começou. 
E Clarice tem uma música que que

158
00:10:31,200 --> 00:10:37,640
fala justamente sobre eu quero 
uma casa no campo onde eu possa 

159
00:10:37,640 --> 00:10:41,080
plantar. 
Acho que é meus amigos, onde eu 

160
00:10:41,080 --> 00:10:43,480
possa ter meus livros e nada 
mais. 

161
00:10:44,200 --> 00:10:50,240
Clarice é, é isso. 
E Clarice não é Liz, mas Clarice

162
00:10:50,280 --> 00:10:53,880
desmontando a linguagem, não é 
pra alcançar o que vem antes 

163
00:10:53,880 --> 00:10:56,040
dela. 
Mary Shelley escrevendo sobre a 

164
00:10:56,040 --> 00:10:59,920
criação e abandono. 
Enquanto o próprio corpo ainda 

165
00:10:59,920 --> 00:11:03,680
carregava, ostentava suas 
próprias experiências pessoais, 

166
00:11:03,720 --> 00:11:07,680
ele se entregando no palco até o
limite do que o corpo sustenta. 

167
00:11:08,240 --> 00:11:13,080
3 mulheres, 3 séculos, 3 
linguagens diferentes fazendo a 

168
00:11:13,080 --> 00:11:16,520
mesma coisa, tornando visível 
uma força que eu reconheço em 

169
00:11:16,520 --> 00:11:20,000
mim, mas que resiste a qualquer 
definição que eu tente dar. 

170
00:11:20,560 --> 00:11:23,400
E aqui eu volto ao pauta, volto 
ao consultório. 

171
00:11:23,880 --> 00:11:27,080
Quando eu percebi que não IA 
conseguir responder a pergunta 

172
00:11:27,080 --> 00:11:30,360
do meu analista com uma 
definição limpa, fiz o que eu 

173
00:11:30,360 --> 00:11:34,040
sempre faço quando algo me 
escapa, fui buscar nas palavras 

174
00:11:34,040 --> 00:11:37,400
dos outros. 
Trouxe Clarice, trouxe Cherry, 

175
00:11:37,400 --> 00:11:39,600
trouxe Elis. 
Tentei explicar o que é ser 

176
00:11:39,600 --> 00:11:44,280
mulher, apontando para as 
mulheres que expressaram isso 

177
00:11:44,480 --> 00:11:47,960
melhor do que eu. 
E meu analista me ouviu com 

178
00:11:47,960 --> 00:11:51,480
muita paciência. 
Depois disse, você consegue ser 

179
00:11:51,480 --> 00:11:54,680
menos teórica? 
E essa frase, que era simples, 

180
00:11:54,680 --> 00:11:59,120
me desarmou completamente, o que
me fez perceber que eu tinha 

181
00:11:59,120 --> 00:12:03,160
dado uma volta intelectual 
enorme para evitar a única coisa

182
00:12:03,160 --> 00:12:05,960
que eu que ele estava me 
pedindo, que eu falasse de mim. 

183
00:12:06,240 --> 00:12:09,360
Eu consigo reconhecer o feminino
na obra de cada uma dessas 

184
00:12:09,360 --> 00:12:12,040
mulheres. 
Consigo apontar onde ele 

185
00:12:12,040 --> 00:12:16,280
aparece, consigo explicar porque
me atravessa. 

186
00:12:16,280 --> 00:12:20,080
Mas quando a pergunta volta para
mim, para o que eu sinto no 

187
00:12:20,080 --> 00:12:24,960
corpo, para o que significa na 
minha história concreta, eu 

188
00:12:24,960 --> 00:12:28,280
volto para o silêncio do início.
Só que agora, sabendo que ele 

189
00:12:28,280 --> 00:12:33,320
não é um silêncio vazio. 
É um silêncio que está cheio e 

190
00:12:33,320 --> 00:12:36,280
muito barulhento. 
E essa descoberta mexeu comigo 

191
00:12:36,280 --> 00:12:39,520
de um jeito que eu não esperava.
Porque eu passei a vida inteira 

192
00:12:39,520 --> 00:12:43,320
construindo competência 
exatamente com as palavras eu 

193
00:12:43,320 --> 00:12:46,400
vivo de traduzir, de explicar, 
de tornar claro o que parece 

194
00:12:46,400 --> 00:12:48,440
obscuro. 
Minha profissão inteira se 

195
00:12:48,440 --> 00:12:51,000
sustenta da minha capacidade de 
pegar uma coisa complexa e 

196
00:12:51,000 --> 00:12:53,960
entregar uma linguagem que o 
outro consiga receber. 

197
00:12:54,480 --> 00:12:58,640
Essa é a docência, de 
descomplicar aquilo que parece 

198
00:12:58,640 --> 00:13:01,320
complexo. 
E, de repente, eu estava diante 

199
00:13:01,320 --> 00:13:04,040
de uma pergunta que exigia de 
mim justamente o contrário, que 

200
00:13:04,040 --> 00:13:08,000
eu aceitasse não saber dizer. 
Que eu ficasse com a coisa sem 

201
00:13:08,000 --> 00:13:10,040
precisar embrulhá la num 
conceito. 

202
00:13:10,640 --> 00:13:14,080
Eu percebo que talvez essa seja 
a diferença entre o que eu faço 

203
00:13:14,080 --> 00:13:16,520
quando eu trabalho e o que 
aconteceu naquela cadeira. 

204
00:13:17,080 --> 00:13:19,920
No trabalho, eu traduzo o mundo 
pros outros e esse é um 

205
00:13:19,920 --> 00:13:21,760
movimento que eu Domino naquela 
sessão. 

206
00:13:21,760 --> 00:13:25,640
Eu precisava traduzir a mim 
mesma para mim e a linguagem que

207
00:13:25,640 --> 00:13:29,440
eu uso tão bem para organizar 
tudo o mais não serve para esse 

208
00:13:29,440 --> 00:13:32,640
segundo trabalho, ou pelo menos 
não serve sozinho. 

209
00:13:32,960 --> 00:13:36,760
E eu fiquei pensando. 
Será que essa dificuldade de 

210
00:13:36,760 --> 00:13:39,240
definir não é justamente a 
resposta? 

211
00:13:39,640 --> 00:13:43,360
Será que ser mulher não é 
exatamente isso, carregar algo 

212
00:13:43,360 --> 00:13:50,200
tão constitutivo, tão entranhado
que em quem eu sou que qualquer 

213
00:13:50,200 --> 00:13:54,120
frase que eu construir vai ser 
menor do que aquilo que eu estou

214
00:13:54,120 --> 00:13:56,680
tentando dizer? 
Eu não sei se vou encontrar 

215
00:13:56,680 --> 00:13:58,480
resposta para essa pergunta. 
Eu não sei. 

216
00:13:58,480 --> 00:14:01,160
Se ela tem resposta em formato 
de frase. 

217
00:14:01,800 --> 00:14:06,000
Eu não sei, não sei. 
Mas eu sei que desde aquela 

218
00:14:06,000 --> 00:14:08,760
sessão eu ando mais atenta ao 
que acontece comigo. 

219
00:14:08,760 --> 00:14:11,640
Quando eu leio Clarice, quando 
eu ouço Elis, quando eu penso no

220
00:14:11,640 --> 00:14:14,720
texto de Mary Shelley, quando 
ela resolveu escrever uma 

221
00:14:14,720 --> 00:14:17,840
história depois do encontro 
entre os amigos e a promessa de 

222
00:14:17,840 --> 00:14:21,080
que sairia uma história de 
terror e que é, na verdade, uma 

223
00:14:21,080 --> 00:14:25,000
ficção psicológica 
inacreditável, um dos melhores 

224
00:14:25,000 --> 00:14:27,600
livros que eu já li. 
E o que eu percebo é que nesses 

225
00:14:27,600 --> 00:14:29,760
momentos. 
Eu não estou aprendendo o que é 

226
00:14:29,760 --> 00:14:32,360
ser mulher. 
Eu estou me reconhecendo em 

227
00:14:32,360 --> 00:14:36,400
personagens, em trechos em 
manifestações femininas e 

228
00:14:36,400 --> 00:14:40,400
masculinas. 
Eu estou me reconhecendo humana.

229
00:14:40,680 --> 00:14:43,720
Talvez a minha tarefa não seja 
enfrentar a definição certa. 

230
00:14:44,120 --> 00:14:47,360
Talvez a minha tarefa seja 
aceitar que essa é uma das 

231
00:14:47,360 --> 00:14:50,680
poucas perguntas da minha vida 
que eu vou continuar respondendo

232
00:14:50,680 --> 00:14:54,800
sem palavras. 
E o que isso é que isso não é 

233
00:14:54,800 --> 00:14:56,640
uma limitação, muito pelo 
contrário. 

234
00:14:57,880 --> 00:15:00,640
Encerramos aqui o nosso pequeno 
expediente, até a próxima. 

235
00:15:04,600 --> 00:15:08,080
Gostou? 
Encerramos mais um episódio. 

236
00:15:08,080 --> 00:15:10,920
Quero muito saber se você 
gostou, se. 

237
00:15:10,920 --> 00:15:14,080
Você curtiu? 
Deixe o seu comentário isso 

238
00:15:14,080 --> 00:15:17,240
mesmo da sua curtida, 
compartilha com quem você gosta?

239
00:15:17,480 --> 00:15:20,760
E mais do que isso, se quiser 
ser meu aluno, minha aluna 

240
00:15:21,040 --> 00:15:25,360
acessa o site, lousaeduca.com.br
e venha fazer parte desse 

241
00:15:25,360 --> 00:15:28,800
ambiente de transformação. 
Pequeno expediente, um lugar 

242
00:15:28,800 --> 00:15:31,400
para pensar com profundidade. 
Até a próxima.

